#GeraçãoMoicano: Neymar vira tendência e dita o rumo da molecada

Cabelos, acessórios e lema ‘ousadia e alegria’ tomam conta da Copa Brasil Sub-15. Treinadores alertam para perigo da falta de identidade própria

O dicionário define os moicanos como índios americanos de uma tribo já extinta, oriunda das margens dos rios Hudson e Connecticut, que tinha como marca o corte de cabelo geralmente raspado nas laterais. O novo cacique do futebol brasileiro, no entanto, tratou de dar um novo significado ao termo. Espelho para 10 em cada 10 garotos que iniciam a vida no futebol, Neymar deixou de ser referência pelos dribles e gols. O garoto do Santos agora é tendência e dita o rumo da nova “Geração Moicano”.

Marca principal, o corte de cabelo não surge como única característica no perfil dos craques do futuro. Gola da camisa levantada, faixa no pulso e meião acima do joelho passaram a ser tão importantes quanto o famoso clichê “estamos preparados para dar o máximo dentro de campo”. E não para por aí. Fora das quatro linhas, é quase que regra os bonés para o lado, brincos e cordões personalizados, fones de ouvidos extravagantes e o talento para dancinhas. Sem contar, lógico, o lema que é repetido como um mantra: ousadia e alegria.

Fomos até o interior do Paraná para acompanhar a fase final da Copa Brasil Sub-15 e identificar os rumos desta geração. E a influência do menino da Vila é cada vez mais global. Do Norte ao Sul do país, há “Neymares” em profusão. Imitar muitas vezes não basta, é necessário querer ser uma cópia fiel do atacante da Seleção Brasileira. E os Deuses do futebol parecem ter dado uma forcinha para mostrar que a fórmula dá certo. O campeão da competição foi o Santos.

– O Neymar é o ídolo, a referência. Não jogo na mesma posição, mas procuro me espelhar nele. Pela história, pelos dribles… Procuro fazer tudo lembrando dele, que é um exemplo para todos nós. Todo mundo quer ter o sucesso e a fama que ele tem – admitiu Raphael, volante de 14 anos do Peixe, dono do moicano mais “Neymarizado” da turma.

Nem mesmo os que apontam a imitação exagerada ou precoce intimidam os garotos. Cheio de personalidade, o lateral-direito Juninho Baiano, também do Santos, afirma que seguir o exemplo de sucesso do time profissional serve como estimulo e dá de ombros para as críticas.

– É sempre bom seguir os passos, né? Para ver se dá sorte. Eles que estão no time de cima são um exemplo para seguir. Sempre tem os corneteiros de plantão, mas as críticas também fazem parte.

Cartilhas limitam, mas não impedem estilo Neymar

Mesmo que não sejam exatos, os números mostram o tamanho da influência de Neymar na molecada. De 80 atletas dos quatro semifinalistas (Santos, São Paulo, Cruzeiro e Grêmio), aproximadamente 30 tinham o moicano como corte de cabelo, fosse mais exagerado ou disfarçado. Apesar de saberem da importância de um espelho para quem está começando no esporte, até mesmo os treinadores admitem que há, sim, uma preocupação para que a idolatria não ultrapasse os limites.

– Os estímulos hoje em dia estão muito precoces. Seja no uso de drogas, sexualidade, ou até mesmo em tudo que é oferecido através da mídia. Isso acaba chegando mais cedo para esta criança ou adolescente, que ainda está mais frágil por essa fase de transição. Por isso, é importante o autoconhecimento. Até para que tenham autonomia de seguir seus próprios caminhos e não se frustrem no futuro – disse Augusto Carvalho, psicólogo do São Paulo.

Durante a competição, considerada a mais importante na categoria no país, muitos clubes estipularam regras e cartilhas que limitavam essa personificação do ídolo. No Santos, por exemplo, era proibido usar boné no trajeto até os estádios. Já clubes como Grêmio e São Paulo foram mais rígidos e vetaram, inclusive, acessórios.

– Temos algumas cartilhas para uso de brinco, aparelhos eletrônicos… Tudo tem horário regrado e limites. É importante para que um adolescente de 16, 17 anos não chegue ao profissional achando que pode tudo. Não pode pensar somente no prazer, nos direitos, e esquecer o dever – argumentou Gustavo Fragoso, treinador do Grêmio.

A cartilha é cumprida, mas nem sempre compreendida por completo pelos jovens, como o meia gremista Charles.

– Por um lado entendemos, mas no outro não. Gostamos de ter estilo e o clube não deixa.

Nada, porém, diminui o desejo de repetir à risca os passos do ídolo. Para o atacante Luiz Felipe, do mesmo Grêmio, a forma de se vestir e agir o aproxima do sucesso conquistado tão precocemente por Neymar.

– Fiz o cabelo por ser fã do Neymar e querer jogar o futebol igual ao dele. É minha inspiração. Fazemos tudo igual. Brinco, corrente, forma de jogar com meião acima do joelho, fita no pulso. Tudo isso.

Estilo também visa ao assédio feminino

Conversas mais descontraídas deixam claro também que o lado futebolístico não é a única razão de tantos “clones”. Expoente no mundo da bola, Neymar ultrapassou barreiras e se tornou uma personalidade nacional em diversos segmentos. Parecer-se com ele é sinônimo de estar na moda. Seja na escola ou no shopping center, os cabelos, brincos e outros tantos acessórios colocam o garoto no centro das atenções e o assédio, mesmo tão novos, é cada vez maior. Enquanto em campo é preciso jogar bem para justificar o estilo, na rua basta adotá-lo para ter sucesso com as menininhas.

– Lá perto de casa as meninas chegam, falam, pedem beijinho, foto… Isso é bom também (risos). Se não fosse a bola, com essa latinha não ia dar para pegar ninguém (risos) – se diverte o santista Willians, fã de Robinho.

Quem se fantasia de Neymar, por outro lado, muitas vezes não sabe que está indo na contramão do caminho seguido pelo próprio. Atual treinador do Sub-15 do Santos, Emerson Ballio teve a oportunidade de trabalhar com a estrela nos tempos de futsal, ainda com 13 anos, e procura deixar claro para seus comandados que a postura do garoto era outra.

– Falo para eles: “O Neymar adorava o Robinho, mas não imitava o Robinho na conduta”. Ele jogava com faixa na cabeça, tinha a personalidade dele. Tudo bem que se trata de uma referência, até para o clube, mas cada um tem que ter sua personalidade.

E é exatamente esta a principal preocupação dos profissionais que cercam a primeira categoria do futebol que disputa grandes competições pelo Brasil. Cientes de que traços de personalidade dos jovens começam a ganhar peso a partir dos 15 anos, os clubes se preocupam em dar tratamento especial não somente ao que acontece em campo, mas também em questões psicológicas e educacionais.

No Morumbi, Lucas é o modelo fora de campo. Já o cabelo…

Cobranças disciplinares fazem parte do processo, assim como exigências em relação a frequência no estudo e postura. Referência na base pelo trabalho realizado no Centro de Treinamento em Cotia, o São Paulo é o clube que mais impõe restrições, e conta com Lucas como maior garoto-propaganda da rígida metodologia.

– O Lucas hoje é o modelo dessa gestão, que é profissional, embora na base. Ele iniciou no processo de seleção e passou por todas as categorias e processos pedagógicos do São Paulo. É um menino diferenciado em termos educacionais. Sabe o que é e o que pode ser. Para se ter uma ideia, ele vai até Cotia regularmente para rever o pessoal, agradecer a quem o ajudou – apontou Marcelo Lima, coordenador da base tricolor.

Curiosamente, entre os quatro semifinalistas o time do Morumbi é o que tem o maior número de moicanos: 11. Todos eles, no entanto, mais discretos do que cruzeirenses, gremistas e santistas. Além do clube, o próprio colégio onde os garotos estudam não permite a extravagância. Em campo, também há restrições: os já famosos meiões acima do joelho e golas levantadas estão vetados. Assim como chuteiras que fujam do vermelho, branco e preto do clube.

No mesmo São Paulo, há um exemplo interessante do quanto o sucesso dos antecessores interfere no comportamento das gerações seguintes. Ao mesmo tempo em que exibe o moicano do Neymar, a molecada não abre mão da camisa para dentro do short, marca de Lucas.

– Lucas, Neymar e tantos outros são espelhos. São exemplos para garotada que está começando. Vejo como fundamental ter um exemplo a seguir. Querendo ou não, acaba-se sempre copiando o estilo de cabelo, de roupa, de brinco. É algo natural. Além de dentro de campo, onde todo mundo quer ser igual a eles, sim – confessou o zagueiro Lucas, capitão são-paulino de jeito sereno e voz pausada, mas com moicano na cabeça.

Cada vez mais precoces no estilo e na seriedade com a qual encaram o futebol, muitos garotos, mesmo aos 15 anos, já se enxergam como jogadores, seja no modo de vestir ou agir. E é justamente aí que mora o perigo da personificação incontrolável destes personagens. Muitos destes “Neymares” e Lucas serão vítimas do funil da bola e acabarão se transformando em engenheiros, médicos, entre outras profissões. Prepará-los para esta possível e, na verdade, até provável frustração também tem sido tarefa dos clubes.

– É importante o setor social com pedagogos, psicólogos, assistentes sociais. Eles que definem as diretrizes para que sejam alguém na vida mesmo que não venham a se tornar profissionais – disse o coordenador são-paulino Marcelo Lima.

E assim, na brincadeira de serem adultos ou de serem ídolos, os novos talentos do futebol brasileiro vão sendo lapidados. Dos 400 jogadores que começaram a Copa Brasil Sub-15, quantos chegarão ao profissional? Resposta que será dada pelo tempo. Ou pelo corte de cabelo: moicano ou não.

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