Dossiê gramados: Brasil persegue o padrão europeu de qualidade

Ainda longe do ideal no cuidado com campos de futebol, país mostra evolução, mas clima, orçamento e calendário dificultam o processo

Na final da Copa do Mundo de 1970, o Brasil vencia a Itália por 3 a 1 quando Pelé recebeu a bola e rolou para Carlos Alberto Torres, que subia em velocidade pela direita. Após o belo chute, a bola morreu no canto direito, estufando a rede. Mas a jogada guardou um detalhe perceptível apenas com a aproximação da câmera de televisão. Antes de o lateral brasileiro acertar a batida, uma pequena falha no gramado levantou a bola, que pegou “na veia” para atingir o caminho perfeito. Possivelmente esse detalhe não aconteceria hoje em dia nos campos classe A.

Muitas coisas evoluíram com rapidez no futebol, e isso se aplica aos gramados. Os tapetes vistos pela Europa podem ser comparados a alguns bons pisos brasileiros, como o de Vila Belmiro, Olímpico, Beira-Rio e Ressacada, por exemplo, mas trazem uma reflexão sobre os casos da Arena da Baixada, uma das sedes da Copa do Mundo de 2014, e do Engenhão, estádio que recebeu mais jogos no país neste ano.

Há muitas diferenças entre os gramados europeus e brasileiros, do tipo de grama ao investimento. O orçamento dos clubes europeus prevê uma boa fatia para o cuidado com os campos, tratando-os como um dos pontos principais para a qualidade do espetáculo. A maioria dos clubes do Velho Continente possui estádios próprios, o que minimiza uma possível sobrecarga ao gramado. Enquanto o Camp Nou, estádio do Barcelona, tem uma média de 30 partidas por temporada, o Engenhão atingiu o dobro disso na metade deste ano, sem contar eventos como shows. No Pituaçu, em Salvador, por exemplo, há uma meta controlada de, no máximo, serem realizados 50 jogos por ano, número que o Serra Dourada contabilizou já em agosto.

Arena da Baixada: atraso na entrega das sementes da grama de inverno

Os campos europeus são, por natureza, mais bonitos do que os brasileiros porque usam grama de inverno, entre elas os tipos Lolium e Fetusca, um piso que chama mais atenção por ter um verde mais intenso e que é mais resistente ao período mais crítico do ano. A grama cresce bem menos com a ausência de luz do sol e calor, por isso a dificuldade que os agrônomos brasileiros encontram a partir de junho.

A grama Bermuda, usada na maioria dos campos brasileiros e em estádios do sul da Europa, é de verão, passando o inverno praticamente adormecida. Por isso é feita há alguns anos, em todos os estádios da Série A, do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul, a prática do “overseeding”, a plantação de sementes de inverno do tipo Ryegrass PHD, que formam um gramado novo e resistente ao frio. Elas formam uma combinação que consegue reparar falhas impossíveis de serem corrigidas com o curto tempo de uma partida para outra se o campo tivesse apenas a grama Bermuda, avessa ao frio.

A grama Bermuda tem vários subtipos. No Engenhão e no Serra Dourada encontra-se a Celebration, enquanto nos campos gaúchos e paulistas predomina a Tifway. As mais antigas são a Batatais e a São Carlos, a famosa grama de jardim, vista na Vila Capanema, estádio do Paraná. Outro tipo menos usado atualmente é a Esmeralda, gramado da Arena do Jacaré, em Sete Lagoas.

mapa gramas (Foto: arte esporte)

A Arena da Baixada tem o pior gramado da Série A atualmente. O maior problema aconteceu com o atraso na entrega das sementes de inverno, importadas dos Estados Unidos. O produto chegou três meses depois do esperado e, além disso, o período mais frio chegou antes, agravando o crescimento da grama de verão e formando um gramado bem irregular, sobretudo na parte do campo que não é bem alimentado pela luz do sol.

– Era para plantarmos a semente da grama de inverno em abril, mas só conseguimos no final de junho. No frio, a Bermuda não cresce mais, e o desgaste passa a ser praticamente irreparável – constata Flávio Vaz, responsável pelo gramado da Arena da Baixada.

Luz artificial, a luz no fim do túnel para os estádios da Copa

A ausência de luz do sol em 35% do gramado da Arena, devido à construção mais fechada, também preocupa. Sem sol, o crescimento da grama acontece de uma maneira muito mais lenta. Por isso o clube já estuda preço e fornecedores de canhões de luz artificial, equipamento usado nos gramados europeus e que ainda não existe no Brasil por razões financeiras: além de custar aproximadamente R$ 2,3 milhões, a máquina consome grande quantidade de energia. Um gasto que muitos clubes ainda não têm como pagar. O Botafogo também já acenou com a possibilidade de investir na tecnologia, mas há controvérsias.

– Não adianta adquirir os canhões de luz sem ter onde guardá-los e sem saber ao certo quanto de energia ele vai consumir. É como comprar uma Ferrari e não ter dinheiro para colocar gasolina – alerta Artur Melo, engenheiro agrônomo que cuida do gramado do Engenhão.

A ausência de luz do sol nos gramados é algo novo no Brasil, uma vez que a arquitetura dos estádios sempre foi pautada por arquibancadas mais abertas, não tão coladas no campo. Agora, são justamente os estádios modernos que apresentam mais problemas no gramado: Engenhão e Arena da Baixada. Para a Copa do Mundo de 2014, essa é uma grande preocupação dos agrônomos.

– Em Salvador, por exemplo, o sol é muito generoso. Temos 2.500 horas de luz natural por ano, e a grama precisa de 1.100 horas. Mas, na Fonte Nova, parece que vão fazer um estudo bem detalhado, já que, com o sombreamento, talvez se faça necessária iluminação artificial – destaca Hélio Ferraro, administrador do Pituaçu, estádio que tem sido usado pelo Bahia enquanto a Fonte Nova é construída para 2014.

Mas nem todos os gramados europeus estão imunes aos problemas gerados pela arquitetura fechada. O exemplo que mais chama a atenção é o do estádio José Alvalade, do Sporting, em Lisboa. Construído dentro de uma arena bem coberta, o campo chega a marcar uma diferença de 9º C entre uma uma área e outra, dependendo dos raios do sol. O desequilíbrio no crescimento da grama é grande, e os problemas, muitos. Tanto que o clube estuda apelar para a grama sintética, o que não é visto com ressalvas pela maioria dos torcedores.

grama wembley (Foto: Rodrigo Sirico/Globoesporte.com)

O tradicional estádio de Wembley, em Londres, foi por muito tempo alvo de críticas pelo estado do gramado. Da reinauguração em 2007 até 2010, a grama foi trocada 11 vezes, mas os problemas continuavam. A solução encontrada foi utilizar fibras artificiais para dar suporte à grama natural. E o problema foi resolvido.

A gangorra Brasil x Europa também tem outros pontos fundamentais. A mentalidade da importância do investimento é o carro-chefe.

– Eles têm um orçamento absurdo para fazer o gramado. Chegam a gastar um milhão de euros por ano, algo totalmente impensável por aqui. O Brasil ainda é muito arroz e feijão – opina o responsável pelo gramado do Morumbi, Daniel Tapia, que tem a opinião compartilhada por Artur Melo, do Engenhão.

– Na Europa há mais investimento nos campos porque há maior conscientização dos dirigentes sobre o tema há mais tempo. No Brasil isso tem sido visto com mais cuidado há menos tempo. Antigamente era muito pior. Hoje, por exemplo, os salários de jogador no Brasil (nos principais clubes) estão bem altos. Vai haver um momento em que o investimento nos gramados terá a proporção merecida para que um jogador de primeira linha atue num gramado de primeira linha.

Responsável pelos ótimos gramados do Olímpico, Beira-Rio e Ressacada, a engenheira agrônoma Maristela Kuhn presta serviços também para o Comitê da Copa de 2014 e é um dos principais nomes do país no cuidado dos campos. Segundo ela, os clubes ainda têm muito a evoluir, mas já estão no caminho certo.

– Trabalho com futebol há 18 anos. Naquela época ninguém investia nos gramados. A mudança tem acontecido. Temos melhores gramados, máquinas de corte mais sofisticadas, que vão permitir um melhor acabamento no campo. Claro que estamos evoluindo, mas ainda há muito a ser feito.

Diretor técnico da World Sports, empresa que cuida dos bons gramados da Vila Belmiro e do Pacambu, Fábio Camara acredita que os brasileiros não estão muito atrás dos europeus no know-how.

– A gente tem por aqui as técnicas de conservação dos gramados europeus – garante, lembrando apenas que os equipamentos não são os mesmos.

Replantio total: método usado na Europa, longe da realidade brasileira

Dentro deste investimento europeu está previsto o replantio total dos gramados. No San Siro (Giuzeppe Meazza), estádio usado por Milan e Inter de Milão, por exemplo, acontecem até quatro trocas de gramado por ano, algo que não é feito por aqui. Uma das grandes dificuldades de se fazer o replantio total acontece por uma questão de logística, já que no Brasil não existem fornecedores de rolos de 100 metros de grama. O máximo encontrado por aqui são 40 metros, o que dificulta o trabalho de nivelamento.

– É muito comum por lá fazer o replantio total do gramado, mas aqui só fazemos nas áreas danificadas, onde o goleiro fica, por exemplo – conta Artur Melo.

Clubes como Figueirense, Avaí e Vasco são alguns que mantêm viveiros para o replantio das áreas danificadas. No clube carioca foi feita recentemente a troca das duas pequenas áreas em tempo recorde, numa mostra de como o calendário não deixa a grama respirar.

– Para reparar a grama defeituosa nas pequenas áreas, mandamos vir do nosso fornecedor alguns rolos e plantamos ao lado da estátua do Romário (atrás do gol à esquerda das cabines de TV). Deixamos lá de 15 a 20 dias mantendo o corte no mesmo nível do campo. Quando ela pega, a recortamos e colocamos nas áreas. Era importante não plantar aqueles tapetes porque eles soltam com muita facilidade e não teríamos tempo para que eles se consolidassem. Aqui no clube muita gente comentou que não daria tempo, mas felizmente conseguimos, apesar de não ter sido com o tempo ideal – revela Bruno Coev, supervisor de patrimônio do Vasco.

No Pituaçu, são proibidos os treinamentos específicos de goleiros

A questão estrutural é tratada como prioridade há décadas na Europa. No Brasil, ainda são poucos os clubes que possuem CTs, o que obriga os estádios a serem usados para treinamentos, como acontece em São Januário, por exemplo. No Pituaçu, em Salvador, os treinamentos são controlados ao máximo. O Bahia pediu recentemente para fazer três coletivos, mas somente um trabalho de 45 minutos foi autorizado. Além disso, não é permitido treinamento específico de goleiros para não sobrecarregar a área mais afetada do gramado.

– Considero um dos maiores problemas a falta de campos de treino. O time acaba trabalhando muito dentro do estádio, que é o palco do show, e deveria ser mais preservado, assim como é na Europa – avalia Maristela Kuhn.

Luiz Fernando Vela, gerente de segurança e patrimônio do Santos, considera, além da ótima drenagem, a ausência de treinos o principal trunfo do bom gramado da Vila Belmiro.

– É muito raro o time treinar na Vila, e isso colabora muito para o gramado estar como está.

Entre as críticas de jogadores e treinadores aos gramados, há um oceano de detalhes que ainda separam o tratamento europeu do brasileiro. Investir é preciso. No pisoteio sem freio, os gramados clamam: aprecie com moderação.

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