Relíquias tricolores: roupeiro revela ‘museu’ com chuteiras históricas

Há 19 anos no Flu, Manoel Carvalho improvisa local nas Laranjeiras e conta com peças de Assis, Renato Gaúcho, Roger, Conca e Washington

Na carteira de trabalho, a função de Manoel Carvalho com as cores do Fluminense é simples: roupeiro. No coração, porém, o desejo de contribuir com o clube que torce desde a infância sempre foi maior e acabou fazendo com que o funcionário acumulasse mais uma tarefa: protetor da história tricolor. Há 19 anos nas Laranjeiras, Manoel não se contentou com o trabalho braçal e inovou: transformou a rouparia em um museu improvisado com relíquias das principais conquistas das últimas décadas.

Manoel, roupeiro do Fluminense (Foto: Cahê Mota/Globoesporte.com)

Contratado para trabalhar com as categorias de base em Xerém, o roupeiro chegou ao profissional em 2002, após a morte do lendário Ximbica, e se tornou responsável por uma tradição que teve início em 1983 e ganhou força nos últimos anos: guardar chuteiras utilizadas por heróis em títulos tricolores. O primeiro a presentear o museu localizado em cima de um armário na rouparia foi Assis, com o calçado que marcou o gol na vitória por 1 a 0 sobre o Flamengo, no primeiro título do tricampeonato de 83, 84 e 85.

O que era inicialmente uma singela recordação de um ídolo se tornou tradição 12 anos depois, quando os roupeiros da época ganharam de Renato Gaúcho a chuteira utilizada em mais uma decisão de Carioca contra o maior rival: a decidida por ele com o eterno gol de barriga, em 1995. Coincidentemente, mais uma vez 12 anos se passaram até que Roger, em 2007, engrossasse a lista após garantir o 1 a 0 sobre o Figueirense, no Orlando Scarpelli, que rendeu o título da Copa do Brasil. A esta altura, Manoel já era o dono da missão, cumprida pela última vez em duas etapas já em 2011.

Figura marcante da história recente do Flu, Washington eternizou seu nome no museu da rouparia com a chuteira que entrou em campo em sua última partida como profissional, no dia do título do Brasileirão de 2010, diante do Guarani, em 5 de dezembro. Da mesma partida veio a última recordação de Darío Conca pelo Tricolor. Ao deixar o clube e seguir para o futebol chinês, o melhor jogador do país no ano passado deu sua contribuição para o memorial de Manoel.

– Cada chuteira tem uma história. Não há uma preferida, o carinho é por todas. Além de tudo, existe toda a amizade que construímos com o jogador no dia a dia. Acaba sendo como uma família. É só olhar para esses pares que lembro de tudo que aconteceu – diz o roupeiro.

E não adianta qualquer um querer presentear o “historiador” para ingressar no museu. Os critérios são fortes e bem definidos.

– Tem que ter escrito alguma história, ajudado a conquistar algum título em jogo decisivo. Geralmente, quando os jogadores chegam e encontram as chuteiras na rouparia perguntam o que significa. Eu explico e aviso que se fizerem história também vão entrar ali. É um prazer guardar isso. Sou tricolor, junto o profissional com a paixão.

Sheik não faz parte da lista, e Romário é o mais ‘chato’

Nem todos os personagens marcantes no passado recente do Flu, entretanto, deixaram sua marca no local. Responsável pelo gol mais importante dos últimos 26 anos, Emerson Sheik teve saída conturbada e repentina das Laranjeiras e não está presente.

Chuteiras relíquias do Fluminense (Foto: Cahê Mota/Globoesporte.com)

– A do Sheik era nova e como ele só tinha dois pares já viu, né?

Com a função de cuidar com carinho do uniforme de trabalho do elenco tricolor, Manoel revela que, apesar dos bons contratos com empresas de material esportivo, são poucas as chuteiras utilizadas por um atleta durante a temporada. De acordo com o roupeiro, o número não passa de três para os jogos. Todas tratadas com o maior ciúme por seus donos.

Em 19 anos de Flu, Manoel recordou o maior pé já visto, do zagueiro André Luis, número 45, e o menor, de Darío Conca, 37. Ele elegeu também o jogador mais exigente: Romário.

Manoel, roupeiro do Fluminense (Foto: Cahê Mota/Globoesporte.com)

– O Romário não trocava a chuteira de jeito nenhum, usava ao máximo. Eu dizia que não dava mais e ele falava: “Peixe, dá um jeito aí”. Acabava que ficava velha, rasgava, costurava… Tínhamos que dar um jeito.

Para que a chuteira fique no ponto para uso do atleta, Manoel diz que o processo é longo. Desde a chegada da fábrica, o produto passa por esticadores, lavagem, é calçada pelo próprio roupeiro e até preenchida por jornais para que fiquem macias e confortáveis. E se a tecnologia faz com que o material seja cada vez mais leve e moderno, para os roupeiros o grau de exigência é maior.

Não basta está pronta e confortável para o uso, é preciso estar apresentável. Vaidosos, os jogadores cobram limpeza após cada utilização. A contrapartida, ao menos, é recompensadora e Manoel garante que ninguém entrega o material com chulé.

– Hoje em dia, tem pedicure, podólogo, acho que até a unha alguns fazem. Eles são tão vaidosos… E o pé é a ferramenta de trabalho, tem que cuidar mesmo.

Pés bem cuidados e loucos para fazer história. Afinal, todos querem colocar a chuteira em cima do armário
de Manoel.

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