Fluminense pedirá efeito suspensivo para técnico Abel Braga nesta quinta

Mário Bittencourt entrará com recurso diante das punições ao treinador e ao atacante Rafael Moura, mas não tentará efeito suspensivo para o He-Man

O Fluminense vai fazer de tudo para ter o técnico Abel Braga no banco de reservas nas últimas oito rodadas do Campeonato Brasileiro. Nesta quinta-feira, o advogado tricolor Mário Bitencourt vai entrar com um recurso no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) para tentar diminuir as suspensões recebidas pelo treinador (quatro jogos) e pelo atacante Rafael Moura (dois jogos) por causa das polêmicas do último Fla-Flu. Depois de uma reunião com a diretoria e a comissão técnica, no entanto, ficou definido que o Tricolor só tentará o efeito suspensivo para o seu comandante.

abel stjd fluminense (Foto: Thiago Fernandes/Globoesporte.com)

– Vamos recorrer das duas decisões do STJD, mas só vamos entrar com o pedido de efeito suspensivo para o caso do técnico Abel Braga. E acredito que temos boas chances de obter sucesso. Queremos o nosso comandante na beira do campo – explicou o advogado Mário Bittencourt, na noite da última quarta-feira, durante o coquetel de lançamento do curso de gestão desportiva do Instituto de Aprimoramento Jurídico (IAJ), do qual o mesmo é um dos professores e cordenadores.

Decisão em conjunto entre diretoria, comissão técnica e jurídico

O pensamento tricolor é simples: a pena de dois jogos de suspensão para Rafael Moura pela cusparada em Renato Abreu já foi considerada uma vitória pelo departamento jurídico do clube. Por mais que ele não possa ser escalado no próximo sábado, contra o Atlético-MG, no Engenhão, justamente quando o titular Fred também está suspenso, no caso pelo terceiro cartão amarelo, o jurídico, a comissão técnica e a diretoria entenderam que o cumprimento da pena agora diminui o risco de perdê-lo nas rodadas finais do Campeonato Brasileiro, o que aconteceria se o clube conseguisse o efeito suspensivo e o jogador fosse obrigado a cumprir a pena mais adiante. A tendência é que a Procuradoria do STJD também recorra da decisão para mudar a punição. Mas nesse caso, o jurídico tricolor poderá usar em sua defesa o fato de que o atleta já terá cumprido parte da sanção.

Antes mesmo da reunião de Bittencourt com a comissão técnica, Abel já tinha dado a pista de que tentar o efeito suspensivo para Rafael Moura podia não ser a melhor opção. Ainda mais porque a ausência do jogador será mais sentida, de fato, em apenas um jogo. Contra o Ceará, no dia 29 de outubro, em Fortaleza, Fred estará de volta ao time.

– E depois ele corre o risco de pegar mais jogos? Seria importante contar com ele agora, é claro. Mas tenho dois jogadores por posição. E se perdermos o Fred por contusão? Ficar sem o Rafael mais para frente seria pior ainda. É preciso ter coerência. Se não podemos criar um problema ainda maior para a reta final do Brasileiro – disse o treinador durante a entrevista coletiva da última quarta-feira.

Sem Fred e Rafael Moura, que marcaram quase 50% dos gols do Fluminense na temporada 2011, Abelão terá de quebrar a cabeça para escalar o ataque tricolor diante do Galo. A tendência é que Rafael Sobis jogue como homem de referência, função que já exerceu no Internacional, em 2005. A outra vaga é disputada por Martinuccio e Ciro, com vantagem para o primeiro, que entrou bem na vitória sobre o Palmeiras e deu a assistência para o gol da vitória. Já Marquinho, também suspenso, deve dar lugar a Lanzini. A provável escalação tricolor é: Diego Cavalieri, Mariano, Leandro Euzébio, Márcio Rosário e Carlinhos; Edinho, Valencia (Diguinho ou Fernando Bob), Deco e Lanzini; Martinuccio e Rafael Sobis.

Líder isolado do segundo turno com oito vitórias nos últimos onze jogos, o Fluminense ocupa a quinta posição do Campeonato Brasileiro, com 50 pontos.

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Abel, sobre Fla-Flu: ‘Não estava dentro dos padrões normais’

Técnico do Flu comparecerá ao tribunal para ser julgado pelo STJD nesta terça-feira devido à súmula do clássico conter insultos seus ao árbitro

Abel Braga passará pelo julgamento do STJD nesta terça-feira devido a insultos relatados pelo árbitro Felipe Gomes da Silva na súmula do Fla-Flu. Porém, oito dias depois do jogo, o técnico do Fluminense ainda não consegue explicar o motivo de ter sido expulso de campo no Engenhão e ainda levanta suspeitas sobre os “padrões” da arbitragem.

– Meu problema foi a forma com que o quarto árbitro se dirigiu a mim. Ele poderia me pedir para voltar à área técnica. Até agora não sei porque fui expulso. Claro que exagerei, mas é simples explicar. No primeiro turno (contra o Fluminense), Airton não tomou nem um cartão amarelo. Nesse jogo, houve aquele probleminha no final do jogo, entre Renato e o Moura, que foi mostrar a boca sangrando para o árbitro. Ele disse que resolveria no segundo tempo e não o fez. Ali, senti que existia alguma coisa que não estava dentro dos padrões normais – afirmou Abel, em entrevista à Rádio Brasil.

De acordo com o técnico, vai ser a primeira vez que voltará a um tribunal depois de quatro anos. Por isso, acredita que sua palavra terá um peso maior. Rafael Moura e Renato também serão julgados nesta terça-feira.

– Fiquei com medo de que um jogador meu tentasse revidar com o árbitro pelos empurrões que ele deu no Moura. Vou falar exatamente isso no tribunal amanhã. Não vou mentir, falar historinha. Tem quatro anos que eu não entro num tribunal, acho que isso deve ter um pouquinho de peso – concluiu.

Árbitro relata ofensas de Abel na súmula. Rafael Moura não é citado

Segundo Felipe Gomes da Silva, técnico do Fluminense o acusou de ‘estar com a camisa vermelha e preta por baixo’ no clássico contra o Flamengo

O árbitro Felipe Gomes da Silva detalhou na súmula do Fla-Flu as ofensas de Abel Braga, expulso no fim do segundo tempo. Segundo o juiz, o treinador gritou palavrões várias vezes e disse que Felipe ‘estava com a camisa vermelha e preta por baixo’. Rafael Moura, que partiu para cima do juiz logo depois da expulsão de Souza, não é citado na súmula.

Confira abaixo o relato na íntegra:

“Expulsei do banco de reservas, aos 45 minutos do segundo tempo, o técnico do Fluminense F.C., Sr. Abel Carlos da Silva Braga, após ser chamado pelo quatro árbitro, Sr. Pathrice Wallace Corrêa Maia, este relatou-me ter sido ofendido com as seguintes palavras: “Não vou para a área técnica não, seu safado, filho da p…, vai para o c…, seu ladrão”. Estas ofensas ocorreram no momento em que o quarto árbitro pediu que o técnico em questão retornasse à área técnica, pois o mesmo estava fora dela questionando uma decisão da arbitragem. Por tal motivo foi expulso e após a expulsão ainda permaneceu ofendendo ao quatro árbitro, conforme este me relatou: “Você é um safado, seu ladrão, eu não vou sair, quero ver me tirar. Foi chamado o policialmente para sua retirada, mas o mesmo continuou nos arredores do campo. Ao término da partida o referido técnico invadiu o campo em direção ao quarteto de arbitragem e dirigiu-se a mim com o dedo em riste. Proferindo as seguintes palavras: Safado, sem vergonha, tira a camisa vermelha e preta que está por baixo, filho da p…”

Abel deseja ‘inhaca’ para Alex e descarta futebol bonito contra Timão

Técnico faz brincadeira com meia do Corinthians, diz que adversário tem eficiência e garante: ‘Vamos continuar jogando ofensivamente’

Quando comandava o Al Jazira, Abel Braga telefonava constantemente para Alex, que defendia o Spartak de Moscou na época. O técnico queria contar com o jogador no elenco da equipe árabe, mas o destino levou Abelão para as Laranjeiras, e o meia se transferiu para o Corinthians. Os dois, que trabalharam juntos no Internacional, estarão frente a frente domingo, às16h, no Engenhão. E o treinador torce para Alex…acordar gripado e com ‘inhaca’ no dia da partida.

– Eu falava com ele de 10 em 10 dias, queria que ele fosse para o meu time na Arábia. Vou rezar para que ele acorde gripado no domingo, com febre, sem disposição. Tomara que tenha uma inhaca (risos) – brincou Abelão, que afirmou que Alex terá atenção especial:

– Não vamos dar espaço para ele.

Abel alerta para que não esperem uma plástica de futebol no jogo entre Fluminense e Corinthians, domingo, às 16h, no Engenhão. Ao exaltar o líder do campeonato com 43 pontos, o treinador destacou a eficiência do adversário, a forte marcação que eles fazem em cima dos laterais, mas deixou claro que eles não jogam – nem deixam jogar – um futebol bonito.

– Eles marcam muito bem os laterais. É um duelo para se ganhar na raça. O Corinthians não deixa jogar um futebol bonito, pois eles não jogam um futebol bonito, mas são eficientes. Gosto de como atuam. Com certeza, eles vão marcar forte o Mariano e Carlinhos – analisou Abel.

O técnico tricolor disse que o time para domingo está definido, mas ele não anunciará os 11 titulares. A provável equipe: Diego Cavalieri, Mariano, Gum, Leandro Euzébio e Carlinhos;Edinho, Rodrigo, Marquinho e Lanzini; Ciro e Fred.

Na onda das três vitórias consecutivas, o treinador admite:

– Contra o Corinthians, qualquer resultado é absolutamente normal. Vamos fazer de tudo para vencer ou dificultar o máximo a vida deles.

E o treinador garantiu: domingo, o Tricolor, mesmo com cautela, não deixará de partir para cima do Corinthians.

– Vamos continuar jogando ofensivamente.

Muro das Laranjeiras amanhece pichado após derrota para o Grêmio

Torcedores do Fluminense protestam após novo revés da equipe com frases como ‘Time sem vergonha’ e pedem até a saída do técnico Abel Braga

A oitava derrota no Campeonato Brasileiro de 2011 acabou com a paciência de alguns torcedores do Fluminense. Na madrugada desta segunda-feira, após o resultado negativo (2 a 1 diante do Grêmio), em Porto Alegre, um dos muros das Laranjeiras amanheceu pichado. Frases como ‘Time sem vergonha’ e até mesmo ‘Fora, Abel’ foram escritas pelos tricolores em protesto diante da campanha do atual campeão brasileiro.

Em nono lugar na competição, o Fluminense não consegue engrenar e vê seus principais concorrentes na luta pelo título se distanciarem a cada rodada. Com 21 pontos conquistados, o Tricolor é a única equipe que ainda não empatou no Brasileiro. São sete vitórias e oito derrotas em 15 jogos, um a menos do que a maioria dos rivais graças ao adiamento do confronto diante do Santos, que será realizado no próximo dia 24 de agosto. Atualmente, a distância para os líderes Flamengo e Corinthians já é de 13 pontos. Para a zona de classificação da Libertadores, esse número cai para sete.

A crítica dos torcedores também recai sobre o técnico Abel Braga. Apresentado no dia 8 de junho após três meses de espera, o comandante ainda busca a melhor escalação e vê sua equipe oscilar entre boas atuações, como na vitória por 2 a 1 sobre o Internacional, e na rodada seguinte ser dominado pelo lanterna do Brasileiro, como na derrota por 3 a 0 para o América-MG. Opções do treinador, como a escalação do volante Fernando Bob na equipe titular, e o hábito de colocar vários atacantes em campo quando a equipe está perdendo também são sempre questionadas pelos torcedores nas redes sociais. Desde que estreou diante do Corinthians, Abelão acumula cinco vitórias e sete derrotas.

A delegação do Fluminense chega ao Rio na tarde desta segunda e segue direto para as Laranjeiras. O treinamento está marcado para às 14h30m. O Tricolor volta a campo já na quarta-feira, para encarar o Figueirense, às 19h30m (de Brasília), no Engenhão.

Cuca é cauteloso ao falar sobre a relação pessoal com o Cruzeiro

Técnico fala sobre o carinho que tem com o Botafogo e o Fluminense

Novo treinador do Atlético-MG, Cuca fez um caminho que não deixa de ser, no mínimo, curioso. Afinal, antes de assumir o Galo, o último clube dele foi o Cruzeiro, maior rival. Quando ainda vestia as cores azul e branca, aliás, Cuca foi campeão mineiro justamente contra o novo empregador. Questionado sobre a possível falta de apego aos treinadores no futebol, que vivenciam situações emblemáticas como essa, Cuca negou categoricamente a insinuação. Para ele, antes de mais nada, é preciso ser profissional para “não morrer de fome”.

– Eu tenho apego, sim. Saio dos times, só que sou profissional, não trabalho em um time só, senão morro de fome. Saí de um grande clube, fui para outro. Dou a vida por onde passo, eu sou assim, e vou dar o meu máximo aqui para me sair bem.

Cuca disse que adora todos os clubes por onde passou. Cauteloso, no entanto, não falou, em plena sala de imprensa do Atlético-MG, que tem um carinho especial pelo Cruzeiro.

– Adoro o Fluminense, o Botafogo, todos os times por onde passei. E um dia vou sair daqui e, com certeza, vou adorar também.

Acostumado

Sobre a esteia no Atlético-MG, que será nesta quarta-feira, às 21h50m (de Brasília), contra o Botafogo, pela Copa Sul-Americana, Cuca afirmou que a expectativa é normal. Ele lembrou outra situação parecida com a que vive em Minas Gerais, quando, no Rio de Janeiro, saiu do Flamengo, onde tinha sido campeão carioca, e foi para o Fluminense, em 2009.

– É diferente, mas já estou acostumado. Diversas vezes, estreei e saí. Já estive no Flamengo e, passou um tempo, fui direto para o Fluminense. Graças a Deus, fui bem. Tenho confiança no trabalho e no grupo do Atlético-MG.

No dia em que Telê faria 80 anos, filho lembra assédio do Barça

Renê conta que o pai chegou a recusar proposta por respeito a Cruyff, que ainda era o técnico da equipe na época. Depois, Mestre sofreu AVC e parou

Das muitas histórias que o nome de Telê Santana carrega no mundo da bola, uma foi lembrada pelo seu filho, Renê, nesta terça-feira, 26 de julho, dia em que o pai completaria 80 anos de idade se vivo estivesse. Resume, com perfeição, por que virou sinônimo de ética e arte nos quase 50 anos de carreira. Seja como “Fio de Esperança”, apelido recebido em pesquisa com torcedores nos tempos em que, franzino, com a camisa do Fluminense, fazia a diferença nos campos como um dos primeiros pontas a cumprir sem erros a missão tática de voltar para ajudar a marcar no meio-campo. Seja como “Mestre”, quando, treinador, principalmente no São Paulo, imprimiu às equipes que dirigiu o futebol arte tão sonhado pelos amantes do jogo bonito.

O ano era o de 1996. Telê vivia grande fase. Bicampeão da Libertadores e mundial interlcubes pelo São Paulo em 1992-1993, entre outros tantos títulos, deixava para trás a fama injusta de pé-frio recebida após os insucessos na Seleção Brasileira que encantou o mundo mas retornou para casa mais cedo em 1982 e 1986. Voltou a virar notícia e ganhou o assédio de clubes, como o Valencia, da Espanha, e de seleções, como a japonesa. Mas a prioridade era o São Paulo, com quem tinha contrato e compromisso moral. Dizia não sem pestanejar. Até que surgiu no caminho um dos grandes gigantes, o Barcelona…

– Pela primeira vez, ele admitiu ouvir os dirigentes. Mas aí disse o seguinte. “Olha, fico lisonjeado com o convite de um clube como o Barcelona, mas vocês têm um treinador, que é o Cruyff. Não posso aceitar, não seria nada ético.” O dirigente respondeu: “Ele sabe que estamos aqui.” Pegou o telefone e ligou para o Cruyff, que explicou estar de saída em um mês. Aí, ele aceitou continuar a conversa, logicamente ouvindo o São Paulo. Só que aconteceu o pior. Adoeceu, teve o AVC e não voltou mais a dirigir clube nenhum. Mas sinto um orgulho enorme pelo comportamento que teve. Sempre com ética e caráter – afirmou por telefone o filho Renê Santana, em São Paulo para participar de alguns eventos em homenagem a Telê.

Quis o destino que não se concretizasse a união do técnico brasileiro mais identificado com o futebol bem jogado com o clube cujo lema é formar grandes equipes e encantar o mundo. Nem dá para imaginar como seria essa parceria. Certo na cabeça de Renê Santana é que o Barcelona de hoje, com Messi, Xavi, Iniesta & Cia., deixaria o pai feliz em sua poltrona, em casa, diante da TV. O futebol de toques precisos, rápidos e objetivos foi o que sempre pregou. E o exemplo do comportamento de Telê citado por Renê mostra que arte e ética podem andar juntas sem prejuízo para o esporte. As primeiras palavras de Zico para se referir ao eterno Mestre só reforçam a ideia.

– Falar de Telê Santana é falar de bom futebol, lisura, disciplina, jogar bola como numa pelada. Coisas mais raras hoje em dia, que o futebol virou um grande negócio e se quer ganhar a qualquer preço. Ele sempre pedia para tirarmos a bola sem fazer falta. Chegava pra nós e dizia: “Joguem bola. Vocês têm condições.” Lembro até hoje de uma imagem dele muito bacana. Foi num jogo contra o Paraguai, no Serra Dourada, pelas eliminatórias. Um dos gols que marquei foi muito bonito, por cobertura. Quando vi o teipe do jogo na TV, uma das imagens era do Telê sorrindo logo após esse gol. Ele adorava uma jogada bonita…

Ainda que às vezes mostrasse uma cara amarrada nas entrevistas, os jogadores conheciam um Telê mais leve, solto, bem-humorado. O sorriso que Zico viu na TV era presenciado pelos jogadores no dia a dia. Principalmente na tensão que precedia os jogos.

– Quando a gente entrava no ônibus da Seleção, já sabia que o Telê poria uma fita com piadas do Ari Toledo e do Juca Chaves. Mas o Ari era o favorito dele. Tinha jogador que já botava o fone para não ouvir. Ele era muito dvertido, adorava contar piada – afirmou o Galinho, recuperado do susto na sexta passada, quando foi internado no hospital com suspeita de meningite.

Se Zico lembra do bom humor do treinador, dona Ivonete, viúva do eterno “Mestre”, recorda com saudades do lado supersticioso do técnico nos tempos de São Paulo.

– Ele sempre vestia uma camisa polo vermelha. Dizia que dava sorte. Quando chegava, após uma vitória, ficava todo sorridente, brincando. E procurava sempre passar tranquilidade para a família antes das partidas. Não queria ver ninguém nervoso. Sinto muita saudade. Era um grande marido e companheiro. Cada ano sem ele vai se tornando mais triste – afirmou dona Ivonete, que viveu mais de 50 anos ao lado de Telê, dividindo os momentos de alegria e incertezas, seja na carreira de jogador como de treinador.

Nervosismo em Itabirito

A caminho de uma exposição fotográfica em São Paulo lembrando os 80 anos de Telê, o filho Renê fez uma viagem no tempo e recordou uma das partidas mais tensas do pai como jogador.

– Olha, você não vai acreditar, mas ele disse que ficava muito nervoso quando disputava o clássico de Itabirito, onde nasceu, entre o Itaberense, time em que jogava, e o União. Garante que ficava mais tenso do que num Fla-Flu, por exemplo.

Telê parecia saber que dali poderia despontar para o mundo. O menino franzino se destacou pela habilidade e fôlego. Logo, logo, o América de São João del Rei o contratou. De lá, foi para o Fluminense, onde virou ídolo. Na ponta direita, tornou-se o “Fio de Esperança”.. Além do futebol técnico, primava pela eficiência tática. e se tornava o primeiro ponta a se preocupar com a função tática de marcação. Tanto que era comum vê-lo recuar para ajudar na marcação. Sempre com muita raça.

O camisa 7 tornou-se logo ídolo. Ganhou os Cariocas de 1951 e 1959, além da Copa Rio, em 1952, e o Torneio Rio-São Paulo, em 1957 e 1960. No Fluminense, seu time de coração. marcou 162 gols e jogou 557 partidas – é o terceiro da história que mais vestiu a camisa tricolor.

Foi no Fluminense também que Telê pendurou as chuteiras e começou a carreira de treinador em 1968. Lá, desde que se tornou técnico e campeão nos juvenis, começou a imprimir sua marca registrada: era adepto do futebol técnico e com disciplina. Não demorou a levantar o primeiro título nos profissionais.

– Meu pai falava muito do título carioca em 1969. Foi um jogo emocionante. Havia mais de 170 mil pessoas no Maracanã, e o Fluminense venceu por 3 a 2, gol do Flávio – disse Renê.

Depiois, Telê partiu para o Atlético Mineiro, mas deixou no Flu a base do time que conquistaria o Roberto Gomes Pedrosa em 1970, equivalente ao nacional. No mesmo ano, foi campeão mineiro pelo Galo, e em 1971 deu ao Alvinegro, que tinha no ataque Dadá Maravilha, o primeiro título da competição já com o nome de Campeonato Brasileiro. Em 1973, teve sua primeira passagem pelo São Paulo, sem sucesso, até chegar a outro tricolor, o gaúcho. No Grêmio, em 1977, quebrou domínio de oito anos do Inter e ajudou o clube a faturar o título estadual. No Palmeiras, mesmo sem títulos, marcou ao montar grande time, que jogava bonito, despertando o interesse dos dirigentes da CBF, que o convidaram a ser técnico da Seleção Brasileira.

Mesmo eliminado nas Copas de 1982 e 1986, Telê ganhou o respeito e admiração do mundo ao montar boas seleções. Mas a derrota na Espanha em 1982, no estádio Sarriá, para a Itália, por 3 a 2, é vista por Zico até hoje como maléfica para o futebol, porque dali em diante o medo de perder ficou maior do que a vontade de ganhar jogando bem. Passou a ser mais importante vencer, ainda que de forma feia. Afinal, um time dos sonhos com Zico, Falcão, Sócrates, Junior, Leandro e Éder saía derrotado de um Mundial.

Mas esse mesmo futebol, que passou um tempo impregnado por retrancas, viu Telê ressurgir com força no São Paulo no início dos anos de 1990. Com Raí, Palhinha, Cafu, Muller, Leonardo, Cerezo e tantos outros, montou dois times que só deram alegrias. Um bi.da Libertadores e do Mundial em 1992-93 pôs fim às críticas. Telê ganhava o mundo com um time à sua feição.

– Quando ele chegou ao São Paulo, recuperou o Raí, que estava em baixa. Meu pai conseguiu mexer com os brios dele, que tinha uma proposta do Albacete, da Espanha. Foi aí que meu pai falou: “Olha, se eu fosse você, esperava e acreditava mais no seu futebol. Você tem bola para jogar num clube melhor que o Albacete.” Não deu outra: Raí foi o herói do primeiro Mundial, em 1992, e acabou indo para o PSG, da França. Aí veio o Leonardo, que conheceu no Flamengo, outro que adorava. Esses foram os preferidos. Na Seleção, Sócrates e Zico – afirmou Renê.

Ao abandonar o futebol em 1996 por conta de um acidente vascular cerebral, Telê saiu de cena dos campos, mas deixou um sucessor que pelo menos o segue na sina de titulos. Muricy Ramalho, auxiliar do Mestre no São Paulo, acabou papão de Brasileiros. Foi tricampeão em 2006-07-08. Antes de faturar a Libertadores no Santos este ano e garantir o direito de decidir, contra o mesmo Barcelona que um dia quis Telê, o Mundial de Clubes no fim do ano, levou no Flu seu quarto título nacional. E foi ali, naquele momento, no clube de coração do “Mestre”, fez a homenagem a Telê, falecido em abril de 2006.

– Eu fiquei tão emocionado que queria falar. Essa noite eu sonhei com o Telê Santana. Sonhei que dei um tremendo abraço nele. Tenho certeza de que ele está muito contente lá em cima com esse título do Fluminense… Acho que esse sonho aconteceu porque falaram tanto dele durante a semana… Acho que foi por isso. Vi o Telê vivo no sonho. E prometi a mim mesmo que, se fosse campeão, ia falar sobre isso – disse Muricy, que, como tantos brasileiros, também sonha em rever o futebol bonito e tão desejado pelo “Fio de Esperança”.

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